Fusariose: conheça a doença fúngica que ataca lavouras!

Toda doença que ameaça a lavoura também coloca em risco a produtividade e a rentabilidade da safra. Entre as que mais preocupam nesta época do ano, está a fusariose no café. Os primeiros sintomas são sutis, mas, sem manejo adequado, a doença pode comprometer toda a planta.
Com o período chuvoso, a combinação entre umidade excessiva e calor cria o ambiente perfeito para a proliferação de fungos. Por isso, damos início a uma série de conteúdos voltados às doenças mais comuns do verão, com orientações práticas para identificar, prevenir e manejar cada uma delas.
E como não há fungicida curativo com alta eficiência para controle da fusariose registrado para uso no café, o manejo precisa ser preventivo e estratégico. Por isso, neste artigo, você vai entender como a doença se instala, o que favorece o desenvolvimento, quais os sintomas mais comuns e como agir para proteger o seu cafezal. Aproveite a leitura!
Fusariose no café: o que é e o que causa a doença?
A fusariose é uma doença fúngica provocada por microrganismos do gênero Fusarium, amplamente presentes nos solos agrícolas. No café, ela é causada principalmente pelas espécies Fusarium oxysporum e Fusarium solani, que penetram nas plantas por ferimentos no caule ou nas raízes.
Uma vez dentro do sistema vascular, o fungo bloqueia o transporte de água e nutrientes. O resultado é um enfraquecimento progressivo e, nos casos mais severos, a morte da planta. Por isso, o controle da fusariose no café precisa ser conduzido com foco na prevenção e na redução de fontes de contaminação.
Embora seja mais comum nos cafezais, o fungo fusarium também causa prejuízos em outras culturas, como feijão, lentilha, ervilha, tomate, maracujá, abacaxi, banana, citros, milho, trigo e cevada.
Em todos esses cultivos, o patógeno age de forma semelhante: aproveita brechas no tecido vegetal para se instalar e bloquear os vasos internos, prejudicando o desenvolvimento e a produtividade.
Fatores de risco para o desenvolvimento da fusariose no café
A presença do fungo fusarium no solo, por si só, não significa que a lavoura será afetada. O problema começa quando há condições que favorecem a entrada e o avanço do patógeno nas plantas.
Essas condições estão diretamente ligadas ao manejo, à estrutura da lavoura e ao ambiente, sobretudo durante o verão, quando o clima favorece o surgimento de doenças fúngicas.
Veja quais são os fatores que aumentam o risco de ocorrência da fusariose no café:
Idade avançada das plantas
Plantas com mais de 10 anos apresentam maior propensão ao ataque da fusariose porque, com o tempo, o tecido vegetal se torna mais vulnerável, especialmente após podas de renovação como recepa ou decote.
Essas intervenções são necessárias para reestruturar o cafezal, mas também criam ferimentos que funcionam como porta de entrada para o patógeno. Como a capacidade de regeneração das plantas mais velhas é menor, os efeitos da doença se agravam.
Colheita mecânica
A mecanização da colheita traz ganhos operacionais importantes, mas também aumenta o risco de danos nos troncos e ramos. As lesões muitas vezes são imperceptíveis, mas suficientes para permitir a penetração do fungo fusarium.
Quando associadas à alta umidade do solo, tornam-se um dos principais gatilhos para o desenvolvimento da doença.
Podas frequentes
A realização constante de podas, sem os devidos cuidados, é um dos principais fatores de disseminação da fusariose no café.
Cada corte é um ponto vulnerável, e quando as ferramentas não são higienizadas entre uma planta e outra, o fungo pode se espalhar rapidamente pelo talhão. É comum observar surtos da doença em áreas onde houve poda recente com falhas no protocolo de higiene.
Clima chuvoso e solo acidificado
Fevereiro e março são meses críticos para a fusariose. O excesso de chuva provoca encharcamento, reduz a oxigenação do solo e favorece o acúmulo de matéria orgânica em decomposição.
Esse ambiente cria duas condições ideais para o patógeno: alta umidade e acidez.

O Consultor de Desenvolvimento de Mercado e Produto da Alta Defensivos, Edivaldo Luiz Panini, destaca que solos excessivamente ácidos favorecem o avanço do patógeno. Como medida de prevenção, é necessário realizar a correção do pH.
O encharcamento do solo, comum no verão, também acelera a propagação do fungo, principalmente em áreas com matéria orgânica em decomposição.
Leia também: Florada do café: dicas de manejo e cuidados
Efeitos da fusariose no café
Conforme Edivaldo Panini, a fusariose ocorre com maior frequência em plantas acima de 10 anos, mas também pode afetar os cafeeiros jovens.
O fungo invade os vasos condutores de seiva, provocando bloqueios que resultam em sintomas progressivos como murcha, desfolha e morte da parte superior da planta.
Confira os principais efeitos da fusariose:
- Amarelecimento no topo da planta, que desce progressivamente para as folhas inferiores;
- Desfolha acentuada, começando pelas partes superiores da planta;
- Murcha visível dos ramos e folhas, mesmo com umidade no solo;
- Paralisação do crescimento, especialmente após a poda;
- Morte do ponteiro, com secagem dos ramos terminais;
- Seca prematura dos frutos, comprometendo a qualidade da produção;
- Estrangulamento dos ramos, com escurecimento da casca e necrose nos tecidos;
- Podridão seca na base do caule, sinal característico da fusariose em estágios avançados.
Em muitos casos, mesmo após a brotação, os novos ramos secam antes de completar um ciclo produtivo. O resultado é uma lavoura falhada, com perdas que se acumulam safra após safra.
Fusariose no viveiro: cuidados preventivos
De acordo com Edivaldo Panini, todo viveiro deve adotar protocolos rigorosos de higiene e sanidade para evitar qualquer tipo de contaminação cruzada.
Um dos pontos mais críticos é o uso de substratos reaproveitados, prática ainda comum em algumas regiões, mas que representa alto risco de introdução do patógeno no sistema produtivo.
“É fundamental que o substrato utilizado seja novo e de procedência confiável. O reaproveitamento de materiais pode carregar esporos de Fusarium, invisíveis a olho nu, mas altamente agressivos para as mudas”, explica o consultor.
Edivaldo Panini também recomenda o tratamento preventivo das sementes e do substrato com fungicidas adequados, a fim de reduzir a carga inicial de patógenos e ter mudas mais vigorosas e resistentes.
É importante destacar ainda que o excesso de irrigação, a drenagem inadequada e o sombreamento excessivo criam um ambiente ideal para a proliferação de fungos. Por isso, o manejo deve priorizar equilíbrio e observação constante, ajustando o sistema de irrigação conforme as condições climáticas.
Como identificar a doença no cafezal?
Como os sintomas iniciais podem passar despercebidos ou ser confundidos com deficiência nutricional, estresse hídrico e outras doenças do solo, o diagnóstico depende da observação cuidadosa e do conhecimento do histórico da área.
O primeiro sinal costuma ser o amarelecimento das folhas no topo da planta, que vai descendo aos poucos. Em seguida, mesmo com solo úmido, a planta começa a murchar e perder folhas, com paralisação do crescimento e brotos que secam logo após emergirem, principalmente após a poda.
Com o avanço da doença, aparecem sintomas mais claros:
- Morte do ponteiro;
- Ramos secos;
- Queda prematura dos frutos;
- Estrangulamento do caule, com perda da casca e coloração escura;
- E, o mais característico, a podridão seca na base do caule, logo abaixo da superfície do solo.
Uma dica prática é usar um canivete ou faca de poda para fazer um corte na base do tronco. Se os vasos estiverem escurecidos e houver necrose seca no colo da planta, a chance de ser fusariose é alta.
Em alguns casos, o problema aparece apenas de um lado da planta. Isso acontece porque o transporte de seiva no cafeeiro ocorre de forma localizada, e o fungo fusarium pode obstruir apenas parte do sistema vascular. A assimetria também é um indicativo importante durante a inspeção visual.
Existe fungicida para combater a fusariose?
Uma das maiores dificuldades no controle é que, até o momento, não existe fungicida curativos para fusariose registrado no MAPA.
O manejo, portanto, precisa ser totalmente voltado à prevenção e à eliminação rápida das plantas infectadas, antes que o fungo se espalhe pelo talhão.
Como a doença se instala nos vasos internos, os fungicidas curativos têm eficácia limitada no controle da fusariose em campo.
Em casos de podas ou colheita mecanizada, Edivaldo Panini recomenda pulverizações com fungicidas específicos logo após o corte para proteger os tecidos expostos e reduzir o risco de infecção.
Conheça algumas práticas de manejo preventivo:
- Utilize mudas sadias, adquiridas de viveiros confiáveis e livres de contaminação;
- Evite plantar em solos encharcados ou com histórico de doenças de solo;
- Desinfete todas as ferramentas de poda com álcool 70% ou hipoclorito de sódio entre uma planta e outra;
- Aplique pasta bordalesa nos cortes de poda, criando uma barreira contra a entrada do fungo;
- Arranque e destrua as plantas com sintomas avançados para que não se tornem focos de contaminação;
- Queime os restos de poda contaminados — jamais os enterre ou deixe no campo.
Em casos iniciais, quando o ataque da fusariose está restrito à parte superior da planta, alguns produtores adotam o decote — corte do tronco abaixo da área afetada — para tentar recuperar o pé. A técnica exige cuidado e acompanhamento, mas pode funcionar como uma alternativa quando os vasos inferiores ainda estão sadios.
Além da fusariose: 8 doenças que todo cafeicultor precisa conhecer
A fusariose é uma preocupação séria, mas está longe de ser o único desafio fitossanitário no campo. O sucesso de uma lavoura de café depende do controle constante de múltiplas doenças, que muitas vezes aparecem juntas, confundem o diagnóstico e exigem decisões rápidas e bem embasadas.
Manchas, murchas, desfolha e queda de frutos são sintomas que podem ter várias origens. E, quando o produtor não conhece bem as características de cada agente causador, corre o risco de aplicar o manejo errado, perder tempo, dinheiro e produtividade.
É por isso que todo cafeicultor precisa dominar o básico sobre as doenças mais comuns na cultura. E a Alta Defensivos preparou um guia objetivo para te ajudar: acesse e conheça as 8 doenças que mais afetam o café.
Perguntas frequentes sobre fusariose
Mesmo com o avanço das pesquisas e o compartilhamento de informações, a fusariose no café ainda gera muitas dúvidas no campo. Abaixo, respondemos às perguntas mais comuns sobre o tema:
Como posso combater a fusariose no meu cafeeiro?
A melhor forma de combater o fungo é impedir que ele se instale na lavoura. Como não há fungicida curativos para a fusariose registrado no Brasil para o cultivo do café, todas as ações precisam ser preventivas:
- Usar mudas sadias, livres de contaminação;
- Evitar o plantio em áreas com histórico da doença ou solos encharcados;
- Desinfetar todas as ferramentas de poda;
- Aplicar pasta bordalesa nos cortes;
- Remover e destruir imediatamente as plantas doentes;
- Evitar a reutilização de restos culturais contaminados.
Em lavouras já afetadas, o foco deve ser eliminar rapidamente os focos e reforçar a higiene das operações para conter a disseminação.
Como tratar Fusarium no solo?
O fungo fusarium pode sobreviver por muitos anos no solo, mesmo na ausência da cultura do café. Por isso, o tratamento não é simples. Algumas estratégias incluem:
- Rotação de culturas com espécies não hospedeiras;
- Correção do pH do solo para reduzir a acidez, que favorece o fungo;
- Melhora da drenagem, reduzindo o encharcamento;
- Uso de produtos biológicos com microrganismos antagonistas, que competem com o fungo e reduzem sua população.
Essas ações ajudam a controlar a pressão do patógeno no ambiente e aumentam a resiliência da lavoura.
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